“AGORA VOCÊ SABE” É UM CANCRO
Christiane Tricerri é uma atriz espetacular. Mulher bonita e imponente. Agrega a isso o fato de ser uma imagem icônica do teatro brasileiro, forjada pelas andanças do Grupo Ornitorrinco, de Cacá Rosset, Luiz Roberto Galízia e Maria Alice Vergueiro. Ela escreve bem. E diz: escrevo o que quero e falo o que quero. OK! Eu também. E digo: sua crônica na Folha de S. Paulo (29/01/2025), que começa revelando que foi enrabada em seu primeiro estupro (seguiram-se outros!), é mais uma peça dessa epidemia de fim da privacidade e arrombamento da intimidade que foi imposta às celebridades, e até a pessoas comuns, nesses nossos tempos. Sai de cena a inauguração da vida privada, marca da modernidade, entra em cartaz a busca da excitação máxima, quando todo nós, amortecidos, tentamos o canto do cisne da última droga para trazer prazer. Tempos contemporâneos. Uns dizem: pós-modernidade. Época em que temos teólogos achando que a Cruz não foi suficiente para Jesus, e buscam textos que mostram que ele foi, de fato, é abusado – ao ter de ficar nu diante de soldados romanos. Juro que há gente pesquisando isso!
Fala-se tudo em uma época em que o capitalismo financeiro gera a internet para diminuir velocidades e, então, acaba com as possibilidades do erotismo, que depende de espaço e principalmente de tempo. A pornografia impera em uma época que pode até levar seu nome, a era da pornografização de tudo. A pornografia é a imagem repetida, de espaço mínimo e tempo zero. Um texto bem escrito, hoje, precisa seguir o rumo da exposição pornográfica. A auto-exposição se impõe. Escreve-se no modelo do IA: letra que se encadeia com letra na busca de uma semiologia adoidada que não se importa com a semântica.
Inventa-se uma ideia estúpida: faça análise não mais no divã, em segredo, mas nos jornais, na internet, publicamente. Exponha-se para também ser cancelado. Leve chibatadas de público e sua culpa irá embora. O pior é o que vem acoplado, como esperança mentirosa e, às vezes – o que certamente não é o caso de Tricerri – cínica: se falarmos, vamos nos exorcizar e ajudar outros! Se gritarmos contando como fomos abusados, diminuiremos a prática. Será o fim do machismo (meu Deus!). Colocaremos abusadores na berlinda. Engano. As pessoas que foram abusadoras e são abusadoras terão o seu incentivo, seu prazer, seu curtir. Saberão que marcaram a história da pessoa que tudo revela, saberão que com pipis pequenos ou grandes, foram importantes. E mais: terão o prêmio de se excitarem com os relatos. Os que não abusarão ninguém, mas gostariam, também! A crônica de Tricerri, mesmo bem escrita, é um incentivo à punheta. É o que faz um seminarista com o espírito fraco, típico de Nelson Rodrigues, continuar vivendo, procurando evitar o suicídio.
“Agora você sabe” – movimento da filha do Temer que, mesmo denunciado como sendo merda, pegou até mesmo a Chistiane. Lamento. Lamento mesmo!
Ela pode ter escrito tentando defender uma amiga, uma escritora que viveu abuso no casamento e que esteve aí no agito dos jornais na semana passada, agora em meados de janeiro de 2025. Mas o que notei é que não houve defesa da amiga, houve apenas a necessidade da auto-exposição que só tem alimentado o rastejo de uma era em que a histeria desapareceu dos consultórios, porque se tornou prática normal ser histérico. Acredito que Tricerri foi traída pela contemporaneidade.
O texto tem tudo para fazer sucesso! É digno do teatro, sim, tenho de confessar.
Paulo Ghiraldelli
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Fui bulido pela mulher de branco.
Mais uma vez lembro desse neologismo que peguei de uma americana que acompanho no youtuber: humiliteinement – humiliation + entertainment
As mulheres estão aprendendo a falar e a escrever sobre os homens. Séculos de silêncio! Sobre vários assuntos, inclusive.
Incomoda né????
Professor Ghiraldelli, o senhor vai continuar a escrever. Seu espaço está garantido, fica tranquilo.
Professor, uma dúvida. Segundo sua explicação, Subjetividade Maquínica significa que os algoritmos passam a se comportar de determinada maneira conforme são estimulados no sentido desejado. No caso da política, segundo sua explicação, gerar “bolhas de direita”. Mas isso não seria comprovado por meio da engenharia reversa que analisaria o código original comparando com os novos códigos resultantes desses direcionamentos? Por que os engenheiros não identificaram nada?
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