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MASCULINO É PENETRAR, FEMININO É RECEBER

Em um mundo aquático uma grande boca que tudo engole faz boa diferença. Pode-se abrir a boca para pegar alguma presa. Mas pode-se abrir a boca sem querer pegar alguma coisa, e assim mesmo pegar. Basta nadar com a boca aberta e os habitantes menores do mundo aquático vão sendo trazidos para o estômago pela correnteza. No mundo aquático, o receptáculo tem mais chances que os elementos de ação, aqueles em forma de seta. Não é necessário muito esforço para se alimentar.

O mundo aquático é feminino. Eis a mitologia que ponho para pensar: caso tudo aquilo que fomos se mantivesse na água, e ainda assim houvesse ocorrido evolução de modo que tivéssemos pênis e vagina, o mundo nosso seria completamente feminino. O princípio do receptáculo venceria.

Tales disse “Tudo é água”. Mas ele já estava em terra. O que fomos saiu desse mundo aquático e veio para a terra firme. Passou por árvores e, quando desceu, teve de ir para além do pegar, colher, e veio a caçar. Aí tudo mudou. Ereto sobre dois pés, o hominídeo usou da lança para se alimentar. Lançar, furar, perfurar, penetrar, arrombar – eis os verbos que comandaram, então, o mundo masculino. Verbos da ordem da caça se mostraram verbos da ordem do pênis. Verbos da ordem do pênis se mostraram verbos da ordem da caça. Não é o caso de procurar origens, mas apenas apontar as similaridades. O penetrador tornou-se caçador, o caçador se aperfeiçoou no penetrar.

As funções sexuais atinentes à reprodução e ao prazer, como comer e acasalar, seguiram pela prática divisória: o homem penetra, a mulher recebe. O homem fura o mamute, a mulher recebe a carne para o cozimento.

Mulheres podem ser ativas, mas ainda assim serão receptáculos. Recebem a seta. Homens podem ser passivos, mas ainda assim serão lanceiros. Sexo e alimentação nasceram imbrincados.

Escrevo aqui não para assumir o binarismo. Este, sabemos bem, não é lei. Pode haver o que se quiser de gênero. Isso não importa para o caso aqui. O que enfatizo é que há uma antropologia que mostra que a seta e o receptáculo marcaram conformações humanas e que isso está ligado a funções do corpo. O penetrar e o receber, no caso do alimento, casou-se bem como o penetrar e o receber no contexto do que se chamou, depois, de “masculino e feminino”. Somos seres anfíbios, viemos da água para a terra, tanto no âmbito da filogênese quanto da ontogênese. E essa nossa transformação, e ao mesmo tempo conservação, nos deu as práticas que, depois, vieram a se ligar aos nomes “masculino” e “feminino”.

Podemos pensar em mil e uma saídas do binarismo. Mas a ideia de feminino e masculino talvez permaneça, e isso no sentido de que à primeira palavra estará ligada o “interior” e à segunda o “exterior”. De um lado a vulva e de outro o pênis, ou a caverna e o raio. Platão feminino, Zeus masculino. Se um dia não houver ninguém mais que se lembre o que é ser homem ou mulher – e isso não importar mais – haverá muitos que irão ainda saber o que é ser masculino e feminino. Haverá ainda uma “psicologia feminina” e uma “psicologia masculina”, mesmo que ela venha a se distribuir por inúmeros humanos bem longe de serem o que chamamos pelas palavras “homem” e “mulher”.

A expressão “bater o pinto na mesa” poderá servir para vários gêneros. Hoje já é assim. Mas o que não deverá mudar tão cedo é que ela estará ligada ao poder de quem tem o comportamento masculino, o comportamento de atingir com a seta. Nossa linguagem não irá abandonar algumas palavras, como “masculino” e “feminino”, ou mesmo “macho” e “fêmea”, por conta das alterações de gênero. O sentido do binarismo tem um componente físico corporal que implica práticas, e tais práticas são muito fortes uma vez que estão ligadas ao sobreviver e ao viver, comer e fazer sexo. Usar de partes corporais que um dia estiveram associadas a corpos que foram denominados de “masculino” e “feminino” é algo do qual não temos como abrir mão. Caso o façamos, talvez tenhamos mais a perder do que a ganhar em termos semânticos. O pênis deve ficar duro para penetrar, a vagina de molhar e ficar receptiva para receber. Essa ordem das coisas deverá permanecer, e a elas o “masculino” e o “feminino” estarão ligadas, e uma série de outras metáforas próximas talvez permaneçam firmes.

Quando tudo é água, estando na caverna, os bebês são educados pelo deus do líquido amniótico: a mãe e sua representante, a placenta. Nesse caso, os bebês são educados pelas mulheres: elas ensinam, em comum acordo com a placenta, que a posição correta dos bebês é a de se curvarem para segurar o cordão umbilical, e assim eles aprenderam a rezar o terço, a serem passivos perante Deus. Mas as mulheres perdem a capacidade de educar esses bebês quando estes também se despedem da placenta. Pisando na terra, devem se educar pela ótica do homem, aquele que não é passivo perante Deus, mas se acha Deus. Não à toa os profetas e médicos antigos andavam com um cajado. Nessa hora, no uso do cajado, o mundo adquire para os bebês, que se tornam então crianças, o mundo masculino.

Em um mundo em que todos os governantes forem mulheres ou algo similar, ainda assim as metáforas de poder estarão, durante bom tempo, vinculadas ao masculino e ao feminino, no sentido da seta e da caverna, do lançar e furar e do receber e acolher.

Paulo Ghiraldelli é filósofo, professor, escritor e jornalista


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5 comentários em “MASCULINO É PENETRAR, FEMININO É RECEBER”

  1. O texto desperta a reflexão sobre o masculino e o feminino sem apelar para o identitarismo ou para o embate machismo x feminismo.

Não é possível comentar.

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