Quando fomos à casa do professor Dowbor, ele carinhosamente apresentou os aposentos e presenteou-nos com seu novo livro. Mostrou-me com certo orgulho a foto de um velho jornal, transformada em quadro na parede. 1970: na foto estavam quarenta pessoas, todos presos políticos, entre eles o jovem Ladislau. A foto foi tirada pouco antes de todos eles serem embarcados para a Argélia. Haviam sido trocados pelo cônsul alemão no Brasil. O alemão tinha sido sequestrado pelos companheiros dos presos exatamente com a finalidade de barganha. Um bom cineasta já deveria ter percebido que a vida de Ladislau Dowbor tem material para um excelente filme sobre a resistência armada à ditadura militar, um regime que vigorou entre 1964 e 1985. Talvez um filme sobre o mundo do final do século XX, uma vez que Dowbor teve passagens por diversos países, como refugiado e também como economista.
Essa experiência no exterior, obtida em diversos países sob regimes políticos os mais variados, deu ao professor Dowbor uma leitura peculiar sobre o que fazer com a economia. Para ele, importa menos Marx e outros teóricos, e mais a funcionalidade da vida econômica de modo que a vida social seja prazerosa para todos. Este é o âmago de seus livros, principalmente os mais recentes.
Enfatizo esse fio condutor das pesquisas do professor Dowbor, de modo a poder iniciar meu comentário sobre o livro que ganhei, Os desafios da revolução digital (Editora Elefante, 2025), sem provocar qualquer mal entendido por parte do leitor. As questões teóricas que levanto aqui não são do interesse atual de Dowbor, e talvez até provoquem nele algum tédio. Coloco-as porque creio que elas podem fazer parte da curiosidade do meu público.
Segundo Dowbor, vivemos na era da revolução digital. Ele prefere essa expressão, deixando de lado outras que se articulam em torno da palavra capitalismo, e que apenas adjetivam essa palavra para explicitar a novidade de nossos tempos.
Dowbor acredita que a China estaria vivendo em um regime além do capitalismo e do socialismo. Ele se insere entre aqueles que trazem possibilidades de mudança em favor do bem comum, procurando eliminar barreiras que seriam próprias de quem fica sob o tacão de dualidades ideológicas. Dowbor não faz nenhuma apologia do Partido Comunista Chinês, nem fala do regime de partido único. Não é seu tema o que muitos no Ocidente chamam de falta de democracia no regime chinês. Ele tem um olhar um tanto que inédito sobre o gigante asiático. Vê naquele país um esforço de vida comunitária que teria se enraizado naquelas terras populosas já há muito tempo, por vicissitudes históricas bem anteriores à fase da revolução comunista. Entende que há uma descentralização de poder que facilita tomadas de decisões. Dowbor falando da China às vezes me lembra dos ideais do comunitarismo, dando peso ontológico para as cidades, e não para as abstrações como invocadas pelos nomes de país ou nação.
Qual a justificativa teórica para Dowbor abandonar o termo capitalismo? Aqui eu ponho minha colher. Ele não está interessado em chamar nosso tempo de capitalismo, do que depreendo da leitura completa do livro, porque ele não vê esse regime segundo a definição clássica de Marx, a que implica a existência de proprietários de meios de produção e os destituídos de posse de meios de produção. Ele percorre a história do capitalismo mais interessado na inovação tecnológica. Toma a época da Revolução Industrial como sendo o que efetivamente se pode chamar de capitalismo. Os trinta anos do pós-Guerra ainda seriam capitalismo, mais especificamente, o seu melhor período. Todavia, temos agora um triunvirato hegemônico: 1) a lógica da financeirização; 2) o excedente sob o controle das plataformas digitais; 3) o trabalho que tende a ser imaterial. Esses três itens descrevem uma sociedade que não poderia mais ser chamada de capitalismo. Os dois primeiros indicam travas no processo social e histórico para além daquelas típicas do capitalismo. Ao mesmo tempo, o item três aponta para o conhecimento como o que se tornou essencial ao trabalho. No capitalismo propriamente dito, na visão de Dowbor, a inovação deveria servir à produção. Nas condições atuais, o conhecimento poderia servir à inovação e ao benefício social se fosse democratizado, mas está sendo cerceado por relações sociais e jurídicas que abarcam o que chamei de triunvirato.
Ora, da minha parte, creio que posso chamar esses nossos tempos de capitalismo. A financeirização atual não me faz acreditar que posso começar a pensar em um novo modo de produção. Mantenho no meu horizonte a sugestão de Marx, que viu o capital financeiro, o dinheiro a juros, como “capital fictício”. Autores como David Harvey não se sentem desconfortáveis em dizer que o capital financeiro, o que se faz valer como regime de rentismo, é o que requisita a apropriação do excedente por parte das companhias fixadas como plataformas virtuais e seus adendos. No âmbito das teorizações de Marx – e Harvey também acentua isso – a inovação tecnológica é produto do capitalismo, não seu motor, e tomá-la como fio condutor do que se pode admirar na história, não raro nas faz entrar por uma espécie de fetichismo. Na leitura que Harvey faz de Marx, o importante em nossos tempos é que a lógica dos ganhos se faz pela aceleração do ciclo pela qual o capital quer se valorizar.
Do modo como descreve essa situação do triunvirato, vivemos uma época de simbiose entre capitalismo financeiro e plataformização, e isso eu chamo de sociedade do capitalismo 4.0. Com esse título também busco apreender as mutações do trabalho.
A possível preponderância do trabalho imaterial sobre o trabalho material não me autorizaria a dizer que estamos sob um novo modo de produção. Para mim, as mudanças no trabalho são essenciais, mas elas nos levam da fábrica que se automatizou à “fábrica social” que, enfim, é a cidade que se digitalizou. Meios de produção, que agora podem estar mais centrados no conhecimento, continuam sob o tacão de empresas privadas, sejam em negócios próprios de plataformas virtuais ou negócios de grandes grupos que ganham com exclusivamente com o jogo do mercado financeiro. Nós todos, que nos transformamos em operários da digitação, podemos trabalhar uns mais com a criatividade cerebral e outros com a repetição dos dedos, mas não detemos meios de produção. Ou seja, Marx ainda me guia nessa base, e mesmo se formos aos Grundrisse, para discutir as célebres questões atinentes ao General Intellect ali aludidas, não penso que possamos dali tirar conclusões que mudem a conceituação utilizada em O capital.
Todavia, essas discordâncias não fazem as minhas narrativas incompatíveis com o pensamento do professor Dowbor. Talvez estejamos mais divergindo apenas em terminologias. Como ele, penso que nosso caminho é o de requisitar ampliação de serviço públicos. Como ele, imagino que ganhamos mais se conseguirmos impedir grandes empresas de cercear o uso do conhecimento que, afinal, somos nós mesmos produzimos, o que as companhias procuram abocanhar por meio de propriedades de patentes, direcionamento de direitos de reprodução, dificuldades postas para a própria criatividade do General Intellect etc. Dowbor denuncia que os mecanismos utilizados pelo rentismo são os mesmos que são utilizados para sugar o que seriam os bens comuns, o que é por direito bens de todos, por exemplo, o conhecimento. Extrativismo e plataformas digitais – tudo a ver! Quem discordaria?
Um dos pontos de análise que destaco em seu livro é justamente o momento em que ele, como um bom cão passarinheiro, põe seu faro para seguir a ave chamada dinheiro. Então, ele nos diz o que poucos dizem. Nota que as Big Techs não são o grau máximo da cadeia de extração dos produtos do esforço humano. Google, Facebook, Apple, Microsof e Amazon estão em boa medida controladas por gigantes financeiros: BlackRock, Vanguard e State Street. Esta é uma chave para o efetivo entendimento do nosso sistema: há forças maiores no comando de um deus como Zuckerberg. Há forças mais potentes que faz com que o jantar entre todos os chefes das Big Techs com Trump e Melania não seja um encontro dos deuses do mundo. Os deuses podem derrotar os Titãs e instaurar um reino em um Olimpo podre. Mas, no momento que vivemos, essa guerra não se deu. Estamos ainda na situação pré-olímpica. São os Titãs, que representam forças cósmicas extraordinárias, é que comandam as coisas. Nesse sentido, às vezes sentimos que as brigas entre as finanças, as Big Techs e o estado apenas nubla nosso olhar.
Todavia, a partir dessas observações, também podemos tirar alguns outros pontos para narrativas diferentes. O professor Dowbor quer que o conhecimento, que é, como Marx disse, um dom natural na medida em que do homem, volte para as mãos dos homens. Da minha parte, temo que a Inteligência Artificial e todo o aparato algoritmico não esteja aí para voltar ou não voltar às mãos dos homens. Algo diferente está ocorrendo de modo veloz. Essa nova maquinaria não põe o homem ao seu lado, como seu vigia ou como seu apêndice, ela o integra de modo que está forjando rapidamente uma nova subjetividade. Não se trata da preocupação daqueles que imaginam que a IA poderia não só tirar empregos, mas mudar nossa capacidade intelectual – como tenho visto muitos falarem e se preocuparem (seria essa a preocupação do cientista MIguel Nicolelis?). Os que pensam assim acabam tendo uma ideia da IA que se parece com aquela dos críticos das histórias em quadrinhos: leitores jovens vão diminuir seus repertórios, raciocínios e imaginação por conta das “figurinhas” dos HQs. Não é assim. Ou melhor, não é bem assim! O que chamo de subjetividade maquínica é outra coisa: é a inflação semiótica com deflação semântica. Temos mais símbolos na jogada, sem significados, com a dispensa da hermenêutica como função autenticamente humana. Nessa rede de máquinas e humanos há a profusão de comandos que adensam em um só corpo maquinal o que algoritmo e o que é humano. É uma forma nova de agenciamento do aparato máquina-homem. A parceria entre cada pessoa e os algoritmos não são parceria. Não raro, são só amálgama e fusão. A subjetivida maquínica não é a subjetividade individual, mas a instância ambiental que se cria em uma época como a que vivemos, que abraça o uso da inteligência com eliminação do uso do corpo, uma época em que aprendemos palavras não segundo a mesma sintonia e afetividade do ensino de nossas mães. Ora, nenhum discurso pode ser realmente um discurso se feito sem a voz humana do ser vivente, o elo efetivo entre inteligência e sensibilidade. Isso diz respeito à produção de um novo tipo de mortal. Se estes viverão individualizados como bons americanos do Partido Democrata ou Republicano, ou comunitariamente como excelentes chineses do Partido Comunista, não é a isso que estou aludindo. O meu campo se desvia para um túnel filosófico antropológico.
Mas, nas tarefas do cotidiano, dificilmente eu tenderia a ver os objetivos de Dowbor, no âmbito da luta política mais imediata, como diferente dos meus. Nisso, creio que estamos em sintonia ao que chamávamos de utopia.
(*) Texto escrito para dar sequência a uma interlocução especial, a do FiloMed, o podcast especial desenvolvido pela Dra Mariangela Cabelo-Ghiraldelli e prof. Paulo Ghiraldelli
Paulo Ghiraldelli Professor, filósofo e escritor. Fez seu mestrado e doutorado em filosofia na USP. Fez mais um mestrados e mais um doutorado, na filosofia da educação na PUC-SP. Seu pós doutorado foi em Medicina Social na UFRJ, no grupo do médico e psicanalista Jurandir Freire Costa. Fez graduação em Filosofia no Mackenzie e em Educação Física em São Carlos, em escola posteriormente encampada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Possui carteira profissional de jornalista e se trabalha como escritor. Lecionou em várias universidades no Brasil, teve experiências como pesquisador na Nova Zelândia e Estados Unidos, como Visiting Professor. Foi professor livre docente e titular da UNESP e se aposentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Tendo em vista as temáticas apresentadas, sugiro duas leituras :
✓ ” Marx não conheceu a internet… “, por Eleutério F. S. Prado e Jorge Novos, no site A Terra é Redonda
✓ ” China: socialismo do século XXI ?”, por André Barbieri, no site Ideias de Esquerda
Obrigado
Corrigindo, em relação ao primeiro texto ( problema com o corretor ), um dos autores é Jorge Novoa
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