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JESUS & POLÍTICA: COISA DE MAU GOSTO

NÃO POR RAZÕES políticas ou religiosas, mas por razões estéticas, não aprecio a mistura entre religião e política. O deputado do PSOL, o Henrique Vieira, faz esse mistura que não gosto. No limite (insisto: no limite), isso acaba se transformando em uma versão dita de esquerda dos Marcos Feliciano da vida, pastor evanjegue.

A Bíblia pode ter se transformado em best seller universal de todos os tempos por razões políticas. Pouco importa. Para mim, ela tem seu valor por ser uma epopeia com cheiro de romance, ficção e história, e que guarda a ideia de que os homens são homens se possuem fé. Trata-se de um documento antropológico escrito por muitos.

“Eu creio que” é um enunciado que nos coloca como humanos. Sua base é a fala da mãe que nos diz, antes e depois do nascimento: “tudo vai ficar bem”. Prepara-se aí a estrutura de “eu creio que”. Eu creio que há água na geladeira, mas não me perguntei por que eu creio. Eu creio que podemos habitar o planeta Marte, mas não me perguntei por que eu creio. O homem é um animal que tem mãe. Esse frase eu cunhei a partir da filosofia de Peter Sloterdijk. É a minha definição de homem. Nela está implícito que o homem é o animal, o único, que pode acreditar. Os outros animais desconfiam. O homem, em tudo que faz, só faz na base da crença, cuja base primeira é ter mãe e escutar “tudo vai ficar bem”. O mistério da fé, ou seja, do acreditar em muitas coisas, até em maravilhas, percorre toda a Bíblia. E sendo um mistério, faz do livro algo da boa estética, da boa história. Não se sabe a razão pela qual se faz as coisas que se faz na história contada na Bíblia, mas esteticamente ela é perfeita, exatamente por isso: porque ela não explica. Ela nos dá imagens e metáforas. Machado é exemplar porque nunca quis resolver o problema de Capitu, e com isso fez seguidores. Os que passam a curtir o mistério.

Quando quiseram envolver Jesus com a política, ele disse “Dai a César o que é de César”. Se a moeda tem a efígie de César, então ela deve ser dele! Que se pague impostos e, com isso, a cara de César volta para o seu dono. A teologia está correta ao dizer que nessa hora há afirmação de que o reino de Deus é um reino transcendente, onde a política não pode ter lugar. Pois a política conserta o mundo, administra, e em um reino perfeito, nada precisa ser consertado e administrado. O mundo de Deus, a utopia de Jesus, não tem que ser consertada, pois é perfeita. Ao dizer isso, Jesus põe em jogo a fé, a crença. Chama o homem para a sua profunda e enraizada humanidade. Seja homem: exerça a sua capacidade mais fantástica que é o acreditar. A fé é tudo aquilo que fez o homem ser homem. Ao sair da água e vir para as árvores, e desta para o chão, e criar o que conhecemos como civilização, o homem só agiu por fé. Talvez seja a fé que vá poder não deixar tudo isso morrer. A política pode ajudar. Mas é o mistério da fé que está na base. A estrutura misteriosa que se faz em nossas entranhas através do “tudo vai ficar bem” é o que nos faz ter feito o que fizemos. Aprendemos a acreditar dentro do útero. Uma vez fora do útero, exercemos essa capacidade, então misteriosa, e por conta de a Bíblia contar essa história como história misteriosa do mistério, é que ela é um livro de boa estética e boa história.

É de bom tom não misturar política e Jesus. O liberalismo separou igreja e estado também, entre outras razões, por motivação estética. Os nobres já não acreditavam nos padres. Os burgueses letrados menos ainda. Os trabalhadores não tiveram ainda a chance de pensar nisso. Estão preocupados com a fé no dinheiro. Afinal, todo o nosso dinheiro não tem qualquer valor, ele é fiduciário. Mais uma vez, temos o mundo funcionando por fé. A fé continua a ser tudo que temos para não cairmos de quatro e sairmos abanando um rabo. Pode-se escolher alguma coisa para ter mais fé, mas não há como perder a fé e continuar humano.

Paulo Ghiraldelli


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