O estruturalismo agregou filósofos bastante diferentes entre si e pensadores de várias áreas: filosofia, psicanálise, lingüística, ciências sociais, antropologia, etc. Seu ponto de partida foi a lingüística de Ferdinand de Saussure (1857-1913), que contrariou duas grandes tendências filosóficas, a dos racionalistas e a dos empiristas.[1] Contra os primeiros, ele negou que o “significado” fosse dado por nomes fixados por essências. Contra os segundos ele negou que o “significado” fosse originado por nomes dados segundo a experiência sensível. O significado seria função de sua posição em uma subjacente estrutura da linguagem. Tal estrutura não seria fixa. Cada objeto lingüístico não seria definido a partir de elementos que lhe seriam inerentes e, sim, em uma relação negativa a outros objetos lingüísticos em um sistema. A linguagem seria, então, um sistema de signos. Estes, por sua vez, seriam combinações de sons e conceitos, relacionados por um sistema de convenções. O caráter convencional da relação interna entre os componentes do signo faria dele um elemento completamente arbitrário. Sendo assim, o signo não teria essência e não apontaria para nenhuma finalidade, estaria longe de poder ser o aval para a idéia platônica de conceitos universais, absolutos, dados pelas formas puras.
Essa ênfase contra o platonismo percorreu todo o estruturalismo. Os chamados neo-estruturalistas ou pós-estruturalistas radicalizaram o antiplatonismo dos estruturalistas clássicos. Além disso, ao recusarem a cristalização de dualismos, também viraram suas costas para o positivismo.
Jacques Derrida (1930-2004), em uma linha de raciocínio inspirada em Nietzsche e Heidegger, procurou atacar o platonismo alertando para uma característica da linguagem que teria envolvido e dominado a filosofia. Ao querer apresentar “a realidade” e o “significado”, a filosofia não teria percebido – ao menos se mantivermos a filosofia como um discurso que sempre foi honesto – o quanto se colocou de modo superior a outros discursos sem legitimidade para tal. O discurso filosófico não seria superior ou inferior a outros tipos de discursos, escritos ou falados, como os da ficção e das ciências, e sofreria das vicissitudes de toda e qualquer linguagem quando se dispõe a dizer o que é o “significado” e a “realidade”. Todo discurso, em tal tarefa, cairia em auto-destruição – se des-construiria.
Derrida afirmou – sem se importar com a acusação de que tal sentença é uma auto-refutação – que todo “significado” ou “o que é” (ser), ao se fazer presente, cria uma ausência. A ausência seria sua presença. Ou seja: quando alguém diz uma palavra, haveria inúmeros significados implicados que estariam faltando, e inúmeros que se sobreporiam ao mesmo tempo. Um discurso se desenvolveria como algo vivo. O mesmo ocorreria com todos seus enunciados, de modo que o conjunto ganharia vida própria na medida em que não poderia não ser alterável por si mesmo. Essa sobre-determinação de significados, o excesso de significado que todo discurso acumularia, poderia ser notada ao percebemos que não somente é o contexto que determina o significado, mas, também, que é o significado que determina o contexto. Se assim é, todo e qualquer discurso poderia terminar por abandonar os princípios lógicos com os quais ele se inicia; o discurso iria se “desconstruindo” na medida do seu caminho. O discurso filosófico, que se pensa imune a isso, estaria tão sujeito a essa contínua alteração como qualquer outro e, por isso mesmo, as dualidades da metafísica – realidade-aparência, fato-valor, certeza-dúvida, etc. –, por uma característica da própria linguagem, não fixariam o que pretendem fixar, estariam sempre em um colapso como quaisquer outras constelações instaladas em narrativas muito menos pretensiosas que as da filosofia.
A crítica de Derrida ao “mito da inocência”, que estaria presente na filosofia de Rousseau, permite uma aplicação dessas suas conclusões contra a metafísica tradicional.
Sócrates nunca escreveu nada. Platão, que escreveu, elogiou Sócrates por isso. A conversa e a linguagem falada seriam os melhores modos de nos comportarmos no exercício intelectual. Rousseau, por sua vez, se manteve firme nesta proposta de condenação da escrita quando confrontada com a fala. A fala seria sempre uma maneira de aproximação dos homens e, ao mesmo tempo, uma forma de não se deixar enganar, uma vez que a fala pode ser corrigida no ato em que é emitida. A escrita, ao contrário, está sob regras que permitem subterfúgios. Uma frase do tipo “feche a porta” é um pedido gentil e suave ou uma ordem raivosa e irritada? A escrita não revela tal coisa, somente a fala poderia ser mais transparente. Todavia, o problema ainda seria outro – também levantado por Sócrates e Platão. A escrita limitaria em muito a resposta e, então, poderia ser utilizada para a manutenção de determinadas estruturas de poder e hierarquia – a falsidade e a mentira estariam associadas, aqui, ao poder. A fala, instrumento não propriamente tão sofisticado da cultura quanto a escrita, seria então, de Platão a Rousseau, o elemento mais saudável. Rousseau, propenso a elogiar tudo que estivesse aquém do alcance da “máscara social”, tudo o que estivesse mais próximo da natureza original, se sentiu satisfeito em seu elogio à fala.
Esse elogio da fala diante da escrita esteve presente – e assim se imortalizou – na antropologia rousseauísta de Lévi-Strauss. Entre os índios brasileiros, ele recolheu o material necessário para fortalecer a tese central platônica-rousseauísta. A história do antropólogo é que na troca de presentes entre índios e brancos, o cacique quis servir de intermediário. Pegou todos os presentes e também uma folha de papel em branco. Então, fingiu ler os nomes dos índios e o presente indicado para cada um. Assim fazendo, conseguiu ficar com os melhores presentes. A conclusão do antropólogo, lida com lentes de Rousseau, foi que o cacique havia mostrado o quanto a escrita, instrumento da cultura, introduziria não só o erro, mas a desonestidade. Mas a leitura de Derrida a respeito do episódio foi diferente.
Derrida levantou a seguinte hipótese: o cacique teria estado propenso a enganar seus subjugados desde sempre, e não apenas quando tomou conhecimento do instrumento de escrita e leitura do branco. Derrida lançou mão, neste caso, do seu passado estruturalista: Saussure havia levantado a tese de que a fala e a escrita possuem a mesma base, que seria a de toda e qualquer linguagem, a saber, a de oposição. A linguagem seria um sistema de oposições. Uma palavra, para fazer sentido para um ouvinte, necessita que ele tenha uma série de outros sentidos em mente – já aprendidos e dispostos. É na oposição a estas palavras já dispostas que haveria o entendimento da próxima palavra. A escrita e a fala não se diferenciariam. A segunda não contribuiria para uma maior transparência que a primeira. Pois não haveria na fala uma relação direta e imediata entre falante e ouvinte, como Rousseau gostaria. A fala e a escrita seriam mediadas, ambas, por quem as toma, pois é necessário evocar o sistema de oposições pré-estabelecido. Assim, no caso dos índios, tudo que eles precisavam para pensar em enganar ou usar da violência já teria sido dado antes de qualquer um deles ter a idéia de enganar os outros usando a estratégia de fingir ler ou qualquer outra coisa do tipo.
A filosofia Derrida e do pós-estruturalismo mostraram, com isso, como que agiriam para serem elementos de desmonte dos preceitos humanistas articulados ao “mito da inocência” originária, o mito da pureza natural gerada na infância e outras formulações desse tipo.
— Paulo Ghiraldelli Jr.
[1] Em epistemologia, é comum falarmos em “racionalismo versus “empirismo”. Trata-se de uma disputa tipicamente moderna. O racionalismo é a posição que tem em Renné Descartes seu representante moderno originário. O racionalismo afirma que se alguém realmente conhece algo, então não pode estar enganado, mas o que é chamado “conhecimento empírico” está sempre sujeito ao engano, erro e ilusão, portanto, nunca se pode chamá-lo de conhecimento propriamente dito, mas somente de opinião. A posição do empirismo, com os britânicos John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776) à frente, é simples: todo conhecimento que alguém possui vem, primeiramente, da experiência sensorial, e não há idéias inatas ou qualquer proposição privilegiada, isto é, alguma proposição que, por princípio, não possa ser posta em dúvida.
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